domingo, 4 de junho de 2017

Analogia (2012)



Pássaros voam
Homens não
Somente se afastam
Do chão

Homens se escondem
Do bem e do mal
Pássaros veem tudo
De cima

E o home voador
Que a tudo assiste
Mudo e imprevisível
Gira no dedo o anel

Pássaros voam
Homens não

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A queda (2017)



Poeticamente falando
O beijo no asfalto
Mesmo sem ser de boca
Machuca!

terça-feira, 14 de março de 2017

Excursão ao Zoo Botânico de Brusque

                     
             No dia do seu 16º aniversário, Juarez só pensava em Mariana, sua paixão  maior. Tudo o que ele desejava era estar com ela, afagar seus cabelos loiros,  mergulhar em seus olhos azuis, beijar sua boca com sofreguidão.
Quando sua diva chegou, o menino foi às nuvens, tamanha era a sua satisfação. Ignorou os demais amigos e puxando Mariana pela mão levou-a para um canto mais afastado do quintal e sob uma pitangueira declarou seu amor, no que foi correspondido. Juraram amor eterno. Mariana, mais sensata, explicou que só namoraria após terminar o 2º Grau; queria formar-se veterinária e lhe perguntou o que estudaria:
- Qualquer coisa, menos medicina! Não suporto ver sangue ou sentir cheiro de hospital. Nunca seria um médico. Jamais!
O tempo passou, os jovens enamorados seguiram, pelas contingências da vida, cada qual seu caminho. Ao todo já se haviam passado dez anos desde aquela festa e Juarez, cansado pelo esforço para concluir os estudos, formar-se com louvor, decidiu fazer um passeio até Brusque, no interior de Santa Catarina, para visitar o “Parque Zoo Botânico” que, diziam, era muito bonito. Levou sua cachorrinha “Mimi”, afinal naquele lugar ela haveria de se divertir bastante. Percorreriam juntos os caminhos revestidos de pedrinhas brancas, parariam sob as árvores para descansar, veriam as emas, os jacarés, as araras e tudo o mais.
Chegado o dia, lá se foram os dois fazer seu passeio. Mimi estava elétrica, já antevendo as alegrias que gozaria, iniciando pelo passeio de carro, que tanto ela apreciava. Saindo de Florianópolis, passaram por Tijucas, Canelinha e São João Batista, subindo a serra de paisagens exuberantes. Dentro da cidade seguiram diretamente ao parque, que fica no morro, atrás da Prefeitura Municipal. Para surpresa de Juarez, não era permitida a entrada de animais naquele espaço. Ele até entendeu os motivos, bastante óbvios, mas ficou com um sentimento enorme de frustração. Resolveu, então, descer a pé a colina e passear na avenida com a sua adorada Mimi. Quando chegaram lá embaixo, distraídos, não viram uma ciclista vindo ao encontro dos dois. Foi um tombo só. Ganidos da Mimi, choro da ciclista, bicicleta com a roda amassada e uma grande e imediata preocupação por parte do rapaz:
- Moça, você está bem? Deixa-me ajudá-la.
- Meu braço está doendo muito...
- Esses olhos azuis... Você é a Mariana?
- Sim, você me conhece?
                 - Claro, sou o Dr. Juarez, Médico, Cirurgião Ortopédico...!

Portal do Zoo Botânico de Brusque-SC

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Orleans e as esculturas de Zé Diabo

          Durante o período de férias, em janeiro deste ano de 2017, resolvemos visitar a cidade de Orleans, no sul do estado catarinense.
          Situada no pé da Serra do Rio do Rastro, passando antes por Tubarão, Termas de Gravatal, Braço do Norte e São Ludgero, Orleans tem, para nós, como atrativo - além da cultura de colonização italiana - as esculturas em alto relevo, executadas pelo artista Zé Diabo, em um paredão de rocha situado bem próximo ao centro da cidade.
          As cenas bíblicas representadas por José Fernandes (Zé Diabo) cobrem cerca de 200 metros de área esculpida e foram executadas entre 1980 e 1988. Este escultor natural de Orleans, nascido em 1930 e que também era pedreiro, deixou obras espalhadas em diversas igrejas e capelas da região.
          O que nos entristeceu bastante foi a falta de manutenção, limpeza e conservação, tanto da obra artística quanto da via de acesso, tomadas por mato, musgo e outras inconveniências. É um local bonito, à beira-rio, mas que, do jeito em que se encontra só pode ser visitado durante o dia.
          No mais, a região é linda. o povo é simpático, as estradas são boas, asfaltadas e sem buracos.
          Outro local que merece ser visitado, passando pela área central da cidade, é o Museu ao Ar Livre, situado na Rodovia SC446 (que por falta de tempo deixamos para outra ocasião). Este é um museu colonial estabelecido em área de 20.000 m2, arborizada e com espaços para lazer familiar.
          Na volta, lá em Braço do Norte, nessa época do ano, nada melhor que comprar, em uma banca de beira de estrada, dois ou três deliciosos melões, nativos da região, para saborear em casa!  
           
A rua de acesso 

O paredão 

Uma das cenas eculpidas

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Dr. Tartarelli

         Quando o conheci ele já era funcionário daquela repartição pública  (chamavam-na simplesmente "O Departamento") há mais de vinte anos, com certeza. Passava os dias, durante o expediente, sentado em um sofá surrado e meio encardido que fazia as vezes de cadeira e escrivaninha, onde, além de escrever seus relatórios, recebia colegas de trabalho e pessoas que precisavam de conselhos ou que lhes assinasse documentos ou, ainda, que determinasse encaminhamentos para suas demandas.
          O Dr. Tartarelli - chamavam-no sempre pelo sobrenome - era aquele tipo de pessoa capaz de resolver qualquer problema sem "stress". Tinha uma calma invejável, qualidade que muito o ajudava a desempenhar sua função como assessor do chefe do Departamento, o Dr. Heinz.
          Quando o "chefão", com seu olho de vidro assustador, pedia algo urgente e as secretárias não conseguiam cumprir a ordem, a primeira coisa a fazer era ir até o Dr. Tartarelli, que a todas respondia:
          - Calma! A situação se ajeita. Vamos esperar até amanhã, quem sabe ele esquece... se não esquecer, amanhã a gente resolve.
          O lugar preferido dele era o sofá, mas quando cansava de ficar sentado ali, gostava de se esconder atrás da porta da salinha da telefonista - com a anuência dela, é claro. Neste cantinho permanecia por horas a fio, enquanto o chefe o procurava, em vão.
          Contava uma das secretárias que certa vez ela foi incumbida de localizar o Dr. e avisá-lo que estava sendo chamado à presença do chefe. Depois de verificar que a sua sala estava vazia e que também não estava tomando um cafezinho - dos dez ou doze que consumia todos os dias - dirigiu-se à telefonista. Abriu a porta, olhou atrás e lá estava ele, sentado na pequena banqueta de estimação, que somente ele usava. Tentou falar:
          - Dr...
          - Sshh...! - fez ele - e você não me viu aqui!!
          Em outra ocasião apareceu naquele andar um empreiteiro que desejava uma "forcinha" do Dr. Heinz para a liberação de pagamento referente à uma obra em execução pela sua empresa. O Dr. Chefão não quis atendê-lo, deixando-o sentado na sala de espera por mais de três horas.
          Quando o cidadão cansou de esperar, procurou pelo Dr. Tartarelli pedindo ajuda.
          - Dr. o que é que eu faço? O homem não quer me atender...
          O Dr. pensou por algum tempo, coçou a cabeça, tamborilou os dedos no espaldar do sofá, levantou-se e foi à cozinha, de lá voltando com uma bandeja de café.
          - O senhor faça o seguinte: Leve esta bandeja, bata na porta dele - 3 batidas leves - e diga "café!"
          Boa sorte.
          Minutos depois o empreiteiro saiu de lá todo sorridente, quase dançando de tão alegre. Procurou pelo Dr. para agradecer, mas não o encontrou.
          - Sshh...! 


sábado, 17 de dezembro de 2016

Encontros (2016)

Por este mundo sem fim
Tenho encontrado pessoas
Algumas imediatamente simpáticas, queridas
Outras, a princípio, nem tanto

Algumas de cara amarrada
Até me ouvirem dizer
Bom-dia!
Então se transformam
Contam-me seus problemas
As vezes aos prantos

Com idades, cores
E olhares diversos
Com a voz embargada
Ou dedos em riste
Cada qual com seus encantos

E depois de um abraço
Apertado se vão (eu fico)

Tenho encontrado pessoas
Pessoas, pessoas!

sábado, 19 de novembro de 2016

O chimarrão que deu tilt

          Aninha é uma gauchinha miúda e elétrica, muito falante e sempre com uma estória pronta, na ponta da língua. Roupas coloridas, cabelos esvoaçantes, parece que a qualquer momento sairá voando, feito uma fada (ou bruxinha do bem!).
          Por razões que só Deus sabe, ela como tantos outros vizinhos rio-grandenses, resolveu se fixar na nossa Ilha-capital, Florianópolis. Fala um "manezês" recheado de "báhs" e "guris" e "aí, menino?" que a torna um ser especial, encantador.
          Aninha trouxe, ao que se sabe, da sua terra, apenas uma mochila que mais parece o "cinto de utilidades" do Batman, tantas as coisas que saem de lá. Dizem, eu não afirmo, que naquela mochila tem um poncho tamanho grande, um par de botas com esporas e tudo, chapéu de aba larga, facão, garrucha, lenço vermelho, uma medalhinha com a foto da avó, barraca e demais utensílios de acampamento, produtos de toucador, queijo e charque do bom, garrafa-térmica, chaleira, cuia de chimarrão - com bomba, é claro - dois quilos de mate e um notebook (já que ela é do tipo informatizada...).
          Agora é que começa o drama da Aninha: Dia desses ela acordou com sede (entenda-se sede de chimarrão, que água é coisa de "catarina"!). Abriu a mochila, retirou os apetrechos importados diretamente do Rio Grande do Sul e preparou, com todo o capricho, a divina bebida amarga. Como sua sede de conhecimentos e amizades também é enorme, abriu seu computador e conectou-se mais rápido que catarinense tentando falar "mais báh, tchê" e, ávidamente, começou a degustar seu desjejum, enquanto teclava com os amigos.
          Em um momento de mais euforia seus dedos erraram a cuia, que ela tentou, em vão, segurar e lá se foi o precioso líquido com pó e tudo por cima do teclado. O seu desespero foi dobrado. Primeiro pelo computador danificado, segundo por ter perdido quase todo o chimarrão que, diga-se de passagem, tinha ficado perfeito. Uma verdadeira obra de arte.
          Aninha gritava tanto que a sua tartaruga de estimação, assustada, subiu na mesa da cozinha derrubando xícaras, copos e talheres (que ela guarda, também, na mochila mágica...).
          E o computador? Depois de limpo e seco só consegue escrever "báh, báh, báh..." e a Aninha, depois de pensar bastante a respeito do causo ocorrido, decidiu ser mais cuidadosa. Diz que, de agora em diante, sempre que for tomar seu chimarrão, deixará uma cuia prontinha, de reserva, caso venha a espalhar a primeira. Seguro morreu de velho, não é?


   A cuia de chimarrão e sua vítima